domingo, 29 de novembro de 2015

Após Delcídio nos perguntamos, onde vamos parar ?

A crônica judicial vai levando os brasileiros diariamente de susto em susto, de incredulidade em incredulidade. A detenção pela primeira vez, e respaldada pelo Supremo, de um importante membro do Senado da República como Delcídio do Amaral, uma peça-chave do governo e do Partido dos Trabalhadores, junto com a do banqueiro André Esteves, símbolo do setor mais sofisticado e moderno dos bancos, foi um sério golpe na consciência da sociedade desorientada e amedrontada, ao descobrir que existem “organizações criminosas” no coração do Estado.

O Brasil está vivendo, de fato, um momento crítico e grave, difícil de definir e de contar dentro e fora do país. É uma mistura de terremoto político, cujo epicentro se encontra nos próprios fundamentos da República, e de esquizofrenia que impede a sociedade de entender se está vivendo na realidade ou no imaginário.

Um país que festejava há apenas dois ou três anos uma ascensão econômica e social inédita, inveja até de países desenvolvidos, que chegou a sonhar em sentar-se à mesa dos que dirigem os destinos do mundo, vive hoje uma espécie de miragem.

É como se, de repente, tivesse acordado de um sonho para tocar com a mão que a realidade crua e nua é muito diferente. O Brasil está gravemente doente politicamente.

E como no simbolismo da esquizofrenia, a sociedade se pergunta se a classe política vive na realidade, ou se se perdeu no marasmo de suas próprias alucinações e ilegalidades.

A prisão do senador Amaral, que foi uma das figuras que se distinguiu por seu senso crítico na já famosa CPI dos Correios, e que chegou a conquistar por isso o aplauso das ruas, é mais significativa e grave, se cabe, pela trama que estava tecendo na sombra da ilegalidade segundo as duras palavras do magistrado Mello, do Supremo: “O contexto que emerge do caso revela um fato muito grave: a captura do Estado e das instituições do governo por uma organização criminosa”.

Do santuário do Senado, que deveria representar a alma e a consciência dos Estados do Brasil, e do templo laico dos bancos mais sofisticados, simbolizada no jovem Esteves, que encarnava o sonho dos brasileiros aspirantes a milionários, surgem acusações de formação de uma equipe do crime.

Não deverá isso soar como um ataque de esquizofrenia aos cidadãos honrados, que amam este país, que se sacrificam para fazê-lo crescer e amar fora de suas fronteiras?

Já há quem se pergunte se com essas duas prisões simbólicas e reveladoras o tumor político é mais grave do que se imaginava, se se terá ou não chegado ao fundo do poço das responsabilidades que a sociedade tem o direito de exigir.

Os analistas brasileiros e internacionais se cansam de afirmar, todo dia, que a crise que agita este país continente é muito mais política que econômica. Mas os brasileiros estão sofrendo em sua carne, começando pelos mais fracos, uma crise econômica engendrada na corrupção da classe política que aparece atuar pelas costas da sociedade.

Uma classe política enredada cada dia mais em um novelo de ilegalidades e traições inconfessáveis que vai alargando o abismo aberto entre o Brasil real e o político, o Brasil que tem tudo para poder crescer e o que vai carcomendo e debilitando os fundamentos da República, sem que se vislumbre no horizonte uma saída para a catástrofe.

No meio dessa incredulidade, diante dos desmandos que a cada dia aparecem mais próximos do coração do poder, existe um perigo e uma esperança.

O perigo é que a sociedade perca sua capacidade de reação e renuncie a defender a república e suas instituições democráticas, reforçando assim a cobiça dos corruptos.

A esperança é que a lama da ilegalidade política que paralisa um país dinâmico como o Brasil chegue a tal ponto de gravidade que a realidade das coisas se imponha e force uma mudança que devolva a ilusão perdida e faça justiça aos brasileiros que, hoje envergonhados, não desistem de sonhar com dias melhores para eles e, sobretudo, para seus filhos.

Juan Arias, El País

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