Matança em Milagres completa um mês e faltam respostas

Matança em Milagres completa um mês e faltam respostas

- em Ceará
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Seis reféns e oito suspeitos foram mortos no dia 7 de dezembro após a Polícia frustrar ataques dos criminosos. O bando já era monitorado semanas antes da ação militar, que se revelou desastrosa, seguida da violação da cena dos crimes

Nenhum real foi tirado dos bancos de Milagres, mas os saques de armas descarregadas deixaram o centro da pequena cidade, em suas ruas e calçadas, no vermelho. Sangue era só o primeiro de muitos rastros mortais no cenário principal da ocorrência, que hoje completa um mês. Dezenas de depoimentos após, recolhimentos de armas e realizadas comparações balísticas, a Polícia Civil já tem o enredo principal dos crimes iniciados na madrugada daquela sexta-feira, em Milagres. As forças de segurança monitoravam a quadrilha e se preparavam para frustrar os roubos, mas desconheciam a existência de reféns.

Com prazo inicial de 30 dias vencendo na próxima quinta-feira (10), as investigações, no entanto, seguem mantidas sob sigilo. Um silêncio que só ocorreu após declarações precipitadas do prefeito municipal, Lielson Landim, do governador do Estado, Camilo Santana, e do então ministro da Defesa, Raul Jungmann. Em todas elas, o tom de sucesso na cruzada contra o crime, em que Bradesco e Banco do Brasil foram salvos.

Não demorou muito para vir à tona o drama dos sobreviventes: Laurinda, 64, vê a filha Edneide morrer em seus braços, dentro do carro na rodovia, após sofrer tiro que, na mesma sequência, atingiu um dos suspeitos. O marido Fernandes, 62, e outro filho, Genário, 37, presenciam o tiroteio em frente aos bancos. “Vocês mataram minha irmã”, disse o rapaz a um policial. Além da cearense Edneide, morreram outros cinco reféns de uma mesma família pernambucana.

“Tive pessoas próximas a mim que também foram vítimas de violência nos estados onde morei e trabalhei, por isso, compreendo toda dor e revolta pelas quais estão passando”, afirmou dias após a ocorrência o secretário de segurança, André Costa. É dele, portanto, que as famílias esperam resposta, especialmente após uma obviedade: a cena do crime foi violada pela Polícia Militar, que, por dever, deveria protegê-la até a chegada da Perícia Forense.

‘Socorrer’

As primeiras dez mortes ocorreram entre 2h15 e 2h30, e às 2h50 já haviam sido retirados os corpos. Primeiro, dos cinco reféns, na caçamba da camioneta do vice-prefeito Abraão Sampaio; depois, em ambulâncias, os corpos dos três suspeitos e um quarto ainda com vida. Em depoimento, os 12 policiais do Grupo de Operações Táticas Especiais (Gate), que atuaram diretamente na ocorrência, alegaram a retirada para “socorrer” as pessoas. No entanto, pelo menos um dos adolescentes entre os cinco reféns recolhidos na camionete estava com a cabeça visivelmente despedaçada por um tiro de grosso calibre.

Recolhidas armas, munição e corpos, os policiais ainda ficaram no local, por mais de quatro horas, à espera da abertura das lojas, especialmente as que têm câmeras externas.

Uma semana após os crimes, ainda percorremos as supostas trajetórias de fuga dos suspeitos e ouvimos diversas testemunhas do episódio da madrugada, algumas delas antes mesmo de serem ouvidas pela Polícia. Os investigadores, da comissão formada para dar suporte à “apuração rigorosa”, tentam manter o silêncio, mas em Milagres as janelas tinham olhos e ouvidos. E câmeras.

O Diário do Nordeste revelou com exclusividade, entre os dias 10 e 12 de dezembro, detalhes da matança do dia que ainda não acabou. O que inicialmente ficou conhecido como “tragédia em Milagres” teve repercussão na imprensa internacional – publicado nos jornais britânicos The Guardian e Daily Mirror e canais de TV dos Estados Unidos.

O Governo de Pernambuco cobrou esclarecimento do Ceará. Dos seis reféns mortos, cinco eram pernambucanos de uma mesma família. “O que houve naquela cidade foi uma chacina”, afirmou Pedro Eurico, secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco, apontando despreparo policial. Em resposta, o secretário André Costa prometeu um trabalho “sério, imparcial e técnico” dos investigadores.

De mãos dadas, reféns eram escudo

Só os gritos de Claudineide,41, além do arrombamento de uma vidraça e dos tiros, rasgaram o som da madrugada em Milagres. Era o desespero diante dos primeiros disparos. Havia poucos instantes, tinha descido do carro com o filho Gustavo e o esposo Cícero, além do cunhado João Batista e o filho deste, Vinícius. Eram todos reféns desde que a Ranger de João Batista foi interceptada na BR 116 por homens que planejavam fazê-los de escudo. Vinda de São Paulo e desembarcando no aeroporto de Juazeiro do Norte com filho e esposo, Claudineide só queria chegar a Serra Talhada (PE). Às 2h, encontravam-se os cinco de mãos dadas, dividindo o medo, a angústia e a missão de ser escudo. Estavam no cruzamento das ruas Padre Misael com José Esmeraldo, esta que dá calçada ao Bradesco.

Uma moradora da mesma região central (identidade preservada) acordou assustada com uma pancada. Era a vidraça do Banco do Brasil sendo estilhaçada como início do ato criminoso. Atrás da família pernambucana, estavam dois homens encapuzados; à frente, o comboio de policiais e um dos suspeitos que é abatido na calçada da Farmácia Santa Cecília. Claudineide grita, e num dos apartamentos em cima da Farmácia, os moradores ouvem e estranham “o que aquela mulher estaria fazendo ali”. A família atravessa a rua para subir à calçada do Bradesco e alcançar o poste, mas já é pleno tiroteio.

Via Diário do Nordeste

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